(O palco está na penumbra. Uma luz suave, cor de âmbar,
foca em um balanço levemente balançando, embora ninguém esteja sentado nele. Ao
lado, um tênis solitário e um trem de madeira coberto de poeira.)
Dizem que o tempo é um rio, mas eu acho que ele é mais
como o vento neste quintal: ele não leva apenas as folhas secas, ele leva o
peso das nossas mãos. Olhem para este balanço... ele ainda guarda o desenho de
um corpo que não pesa mais do que um sonho.
Eu me lembro de quando o chão não era longe. De quando a
areia entre os dedos era a única geografia que importava. A inocência... ela
não vai embora com um adeus barulhento, sabe? Ela foge em silêncio, como o sol
que se apaga atrás do muro, deixando a gente aqui, com os pés grandes demais
para esses sapatos e o coração pesado demais para voar.
(Caminha até o trem de madeira e o toca com a ponta dos
dedos)
Este brinquedo já foi um império. Hoje, é apenas madeira
morta. O que aconteceu com a luz que fazia tudo parecer eterno? A gente cresce
e aprende a dar nome às dores, mas desaprende a rir do nada. A alma adulta é um
exílio. Olhamos para o quintal da infância por um vidro embaçado pela neblina
de sermos 'alguém'. Mas, no fundo, quem somos nós sem aquele brilho que não
pedia permissão para existir?
(Olha para o horizonte, onde a luz esmaece)
A noite vem. E o balanço continua lá, esperando por
alguém que já esqueceu como se faz para perder o chão e encontrar o céu.
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